O álbum que fizeram quando tudo já estava a desmoronar

Na manhã de 8 de agosto de 1969, um fotógrafo chamado Iain Macmillan subiu a uma escada no meio da Abbey Road, no norte de Londres, e tirou seis fotografias de quatro homens a atravessar uma passadeira. Paul McCartney tinha-lhe desenhado, uns dias antes, um esboço rápido da imagem. Era a capa de um álbum que ainda não tinha o nome da banda. Não precisava.
A banda que o fazia estava em mau estado. As sessões de Get Back, no início desse ano, tinham estado perto do desastre e as fitas foram arrumadas numa gaveta. Então McCartney foi ter com o produtor George Martin com um pedido estranho: podiam fazer mais um álbum “como antigamente”? A resposta de Martin veio com uma condição: só se pudesse produzi-lo como antigamente. Ambos conseguiram o que pediram.
Abbey Road saiu na sexta-feira, 26 de setembro de 1969. Não foi o último disco dos Beatles a ser lançado – Let It Be chegou em maio de 1970 – mas foi o último que fizeram. O último dia em que os quatro estiveram juntos no estúdio foi 20 de agosto de 1969, passado a misturar “I Want You (She's So Heavy)”. “The End”, gravada durante o verão, foi a última canção em que tocaram os quatro, e contém o único solo de bateria de Ringo Starr num disco dos Beatles. Termina com um verso que, segundo McCartney, simplesmente lhe surgiu enquanto procurava um final: “E no fim, o amor que recebes é igual ao amor que dás.”
Depois, após uma pausa, chega “Her Majesty” – uma canção de brincadeira, colada depois do fim.
O álbum esteve 11 semanas em n.º 1 na Grã-Bretanha, perdeu o lugar para Let It Bleed dos Rolling Stones e depois voltou a tomá-lo por mais seis. Na América chegou ao topo na terceira semana e ficou lá 11 seguidas. Na capa, Paul está descalço – disse mais tarde que era simplesmente um dia quente – o que alimentou o rumor de que tinha morrido. Em 2010, a passadeira tornou-se a primeira da história a receber a classificação de monumento de grau II.
A história teve mais um capítulo. Em 2023, “Now and Then” – construída sobre uma maqueta de John Lennon que Yoko Ono tinha dado a Paul – foi concluída depois de a equipa de Peter Jackson usar separação de pistas assistida por IA para retirar a voz de Lennon da fita, com novo baixo e bateria de McCartney e Starr e guitarra de George Harrison gravada em 1995. Em fevereiro de 2025, ganhou um Grammy de melhor desempenho rock – o primeiro da banda em 28 anos.
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